Terça-feira, 3 de Novembro de 2009

Nunca estamos à espera da notícia da morte das pessoas que fazem parte da nossa história.

O desaparecimento do António Sérgio é um desses momentos em que sentimos que nos fica a faltar um bocado de memoria.

Hoje deve ser difícil aos miúdos compreenderem a importância que tinha nas nossas vidas um divulgador de música; não percebem sequer o conceito.

Hoje, com a net, os downloads, as redes sociais, os mails e por aí fora, toda a informação (incluindo a musical) está à distancia de um clic.

Mas houve um tempo em que só havia uma fonte de informação e essa fonte era o Som da Frente.

Lembro-me de ouvir religiosamente e de haver amigos que gravavam as emissões em cassete para emprestarem ao pessoal que tinha tido aulas de tarde e não podia ouvir em directo. Lembro-me de um colega de liceu que ensinou a empregada a gravar as emissões nos dias em que ele tinha explicações.

Hoje tudo isso parece absurdo; agora está tudo disponível em todo o lado 24 horas por dia.

Hoje a banda mais obscura do planeta tem vídeos on-line no youtube e podemos fazer downloads de canções que ainda nem sequer foram editadas; quando eu tinha 15 anos nem sequer se importavam discos - era preciso que algum iluminado fosse a Londres ou a Nova Iorque e depois se desse ao trabalho e à generosidade de o divulgar na rádio.

Eram os Dias da Rádio.

Há um momento nas nossas vidas em que nos tornamos musicalmente autónomos; deixamos de ouvir a “música dos pais” e começamos a trilhar o nosso caminho. E foi nessa altura que o António Sérgio entrou na vida da minha geração.

Foi ele o feiticeiro que nos preparou para o ritual da passagem à idade adulta.

Foi com ele que passámos do Zeca Afonso, do Fausto ou do Paulo de Carvalho para os Joy Division, os Bauhaus ou os Cocteau Twins.

A viagem do António Sérgio está longe de ter acabado; enquanto a nossa viagem continuar, a dele também segue ininterrupta.

Porque foi ele quem nos iniciou e incitou a percorrer estes caminhos, nós continuaremos a desbravar caminho com ele.

E será assim até que o último ouvinte se despeça do mundo dos vivos e vá ouvir música (espero que celestial)  para outras paragens.

Felizmente o paraíso na terra existe; dá pelo nome de Radar e ajudam a manter o eco do seu vozeirão.

O espírito do Lobo vai continuar a andar por aí a uivar à noite.

Ai vai vai...

 



Cais das Colinas às 12:00 | link do post | comentar

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