Quinta-feira, 19 de Novembro de 2009

imagem in Público online
Uma vez que o art.º 11 do Regulamento de Deontologia da Ordem dos Arquitectos não é muito claro quanto ao que se pode, ou não, fazer nestes casos, abstenho-me de comentários e remeto para as sábias palavras de Nuno Teotónio Pereira. Arrisco apenas um comentário: pessoalmente e neste particular, não gosto de "de ideias que se aproximam do limiar entre o kitsch e o piroso", e mais não digo.
De Cais das Colinas a 19 de Novembro de 2009 às 15:11
Não estando eu limitado por nenhum código de deontologia, posso dizer tudo o que me ocorre.
E a primeira coisa que me ocorre é assumir que não disponho dos elementos necessários a fundamentar uma opinião; falta-me nomeadamente uma ideia precisa de qual será o impacto da obra quando vista do rio (apesar de imaginar que uma torre de 100 metros terá necessariamente impacto).
Mas sendo o projecto em epígrafe destinado a uma igreja, não será despiciendo o recurso ao provérbio de que “o futuro a Deus pertence”.
A implantação de uma obra no espaço não se faz no dia da inauguração e já todos nós tivemos seguramente que rever algumas posições pessoais sobre obras que considerámos originalmente mamarrachos e que depois acabaram por se integrar, moldar e beneficiar o espaço envolvente.
Dizer hoje que aquela igreja será sempre uma aberração e que nunca se enquadrará no espaço circundante pode ser admissível à Maia ou a outro qualquer vidente – esses sabem o futuro e por isso podem ter certezas absolutas.
Eu é que, confesso, não sei mexer no oráculo de Bellini.
Pelo contrario, hoje convivo bem com as Torres das Amoreiras e com o CCB e sei bem o que disse desses empreendimentos no passado.
Quem me garante a mim que a nova igreja, com toda a polémica instalada, não se vai transformar num ponto de visita obrigatório na cidade? Quem me assegura que dentro de uns anos os autocarros de turistas não sobem a encosta do Restelo depois de passar nos Jerónimos para visitar a “aberração”?
E que a aberração em causa não vai trazer milhares de visitantes que poderão ver o projecto urbanístico Teotónio Pereira/Nuno Portas que de outra forma só seria visitado pelos moradores?
Quanta polémica não terá causado o Guggenheim de Bilbao? E a Torre Eiffel que era para ser demolida depois da Expo? Será que a Torre se enquadrava na Paris de fins do séc. XIX?
E a ditadura militar não queria abandonar/demolir Brasília porque “lugar de arquitecto comunista é em Moscovo”?
Não estou evidentemente a comparar as obras mas aprendi a perceber que em matéria de arquitectura é preciso dar tempo ao tempo.
Um edifício não ocupa apenas Espaço; por ser uma estrutura duradoura também ocupa Tempo.
Quanto à opinião do Arqº Teotónio Pereira, parece um concurso de tiros nos pés: “a liberdade de criação dos arquitectos não deve ser limitada, mas neste caso...” nem por isso.
E termina em beleza com esta: “a arquitectura das igrejas deve pautar-se pela pureza de formas e pela beleza”.
Eu acho que não: acho que “a arquitectura das igrejas deve pautar-se” por aquilo que a Igreja quiser, desde que sejam eles a pagar e que o projecto cumpra todos os requisitos legais.
Da mesma forma que um estádio de futebol se deve pautar por aquilo que o clube que o paga quiser (desde que cumpra a lei) e da mesma forma que a minha casa de campo se deve pautar por aquilo que eu quiser desde que cumpra a lei.
Existe uma outra solução que passa pelo projecto do PCP de criar uma “comissão de estética” para assegurar nada sai da bitola do que for estabelecido pelo poder central. É uma opção; eu é que não acho a arquitectura da RDA e a respectiva “conformidade” particularmente estimulante.
De jpfelgueiras a 20 de Novembro de 2009 às 08:16
Bem dito seja o RD-OA que nos uniu no amor à Arquitectura.
Amén
De
fblourido a 20 de Novembro de 2009 às 10:46
eheh Bem visto. Não tinha visto as coisas por esse prisma; é, de facto, bastante pacificador.
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